Educação no Século XVIII: Com apresentação da história da Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim
Written by Adonai Estrela Medrado   
Monday, 30 June 2008 21:30

Sobre

Este material é de autoria de Adonai Medrado, Fátima Nery, Flávia Fontenelle, Patrícia Oliveira, Ricardo Portela e Sorailde Ferraz

Introdução

Com o objetivo de dar uma visão panorâmica da Educação no Século XVIII, este trabalho faz uma contextualização histórica e traz dados sobre a Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim, instituição de ensino fundada durante este período.

Inicia-se com uma contextualização histórica do século, seguindo com uma retrospectiva das condições da educação naquele século e conclui-se por uma apresentação da Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim.f

Este trabalho é considerado importante para o estudante de letras uma vez que lhe proporciona uma visão da evolução histórica da educação.

Contextualização histórica

O século XVIII foi marcada por uma série de acontecimentos relevantes para a história do Brasil e de Portugal. Entre 1700 e 1714 ocorreu a Guerra da Sucessão, que teve como conseqüência a dependência portuguesa com relação à Inglaterra. Foi a época da atividade mineradora e da queda dos preços do açúcar brasileiro. A metrópole impunha medidas restritivas que aprofundaram a exploração da colônia. Houve a Guerra dos Mascates em 1710 e o descolamento do eixo econômico do nordeste para o sudeste. (KOSHIBA, 1993).

A tabela abaixo, formulada a partir dos dados coletados em Koshiba (1993) e Nunes (2003) dá uma visão geral destes acontecimentos e dos que irão ser explicados mais a frete neste trabalho.

Contextualização Histórica

Ocorreu no século XVIII

Guerra da Sucessão Espanhola (1700-1714). Inglaterra: rendoso tráfico negreiro para as colônias americanas e espanholas.

Dependência portuguesa em relação à Inglaterra.

Queda dos preços do açúcar brasileiro.

Imposição de medidas restritivas que aprofundaram a exploração da colônia.

Guerra dos Mascates (1710).

Época da atividade mineradora. 1750: já apresentava sinais sintomas de decadência.

Deslocamento do eixo econômico: Nordeste para o centro-sul.

Medidas educacionais no Reino de Portugal

1759: Expulsão dos Jesuítas. Ensino elementar entregue a mestres e professores não eclesiásticos.

1774: proposta de apanhado do estado dos estudos no reino português. Resultado em 1799: Memória sobre o estado atual dos Estudos Menores em Reino de Portugal.

1779: Reforma dos Estudos Menores. Ensino elementar regressava às mãos dos religiosos.

Reino de Portugal: Ensino Médio

Disciplinas: Filosofia Racional, Retórica, Língua Grega, Gramática Latina e Desenho. Não correspondiam a um curso: lecionadas de acordo com as possibilidades dos locais de ensino.

Não havia um só lugar onde todas as disciplinas eram lecionadas.

Reino de Portugal: Ensino Feminino

1790 (concretizado em 1815) - Decreto de D. Maria I: 18 lugares de mestras de meninas em Lisboa.

Ensinava-se além de ler e escrever a fiar, coser, bordar e cortar.

Governos da capitania da Bahia

1784-1788: Governo de D. Rodrigo José de Menezes. Estabeleceu o Colégio de Educação da Mocidade.

1788-1801: Marquês de Aguiar. Na época: 25 escolas de primeiras letras (6 em Salvador).

Ensino equivalente à 5a., 8a. e nível secundário

Ensino equivalente à 5a. e 8a. séries: Gramática latina.

Ensino equivalentes ao nível secundário: Aulas maiores de retórica, filosofia racional, língua grega.

Salvador: 4 aulas de gramática latina (com um professor substituto para todas elas).

Restante da Bahia com mais 18 cadeiras.

Pagamento dos Professores e Contribuições

Subsídios literários: Recebido das câmaras. Única subsistência dos professores e mestres.

1799: Constantes atrasos no pagamento, rendimento do subsídio literário não chegava para todos. Imposto para contribuir com o sustento dos estudantes e seminaristas pobres: vinte réis a ser cobrado de todos os habitantes.

Educação no Brasil até o Século XVIII

A história da educação no Brasil iniciou-se com a chegada dos padres jesuítas em 1549. Visando à propagação da fé, lançaram as bases de um vasto sistema educacional, que se desenvolveu progressivamente com a expansão territorial da colônia. Agindo com rapidez, estabeleceram-se no litoral e daí penetraram nas aldeias indígenas, fundando conventos e colégios. Por dois séculos, foram os principais educadores do Brasil, ao lado de outras ordens religiosas que também mantiveram escolas, como a dos franciscanos.

Nas escolas elementares, base do sistema colonial de educação, que funcionavam onde quer que exista um convento, os índios aprendiam a ler, escrever, contar e a falar o português. Nelas também eram instruídos os filhos dos colonos. A cultura dos nativos foi, pouco a pouco, substituída pelas idéias dos jesuítas. Desse ponto de vista, os missionários atuaram como elementos desintegradores das culturas não-européias.

Na família patriarcal, a única força que se opunha à ação educadora dos jesuítas era a dos senhores de engenho, cuja autoridade se exercia não somente sobre os escravos como sobre suas esposas e filhos. Esse estado de submissão facilitava o trabalho dos jesuítas, que também procuravam submetê-los à autoridade da igreja. A família patriarcal seguia, assim, as tradições portuguesas.

Humanistas por excelência, os jesuítas procuravam transmitir aos discípulos o gosto pelas atividades literárias e acadêmicas, de acordo com a concepção de "homem culto" vigente em Portugal. A falta de interesse pelas atividades técnicas e científicas marcou a educação colonial, por sua vez moldada pela da metrópole. Principiando pelas escolas de leitura e escrita, não pararam aí os jesuítas, nem mesmo no primeiro século, pois já havia, então, cursos de humanidades em seus colégios do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Os colégios que exerceram maior influência foram os de Todos os Santos, na Bahia, no qual Antônio Vieira foi educado, e o de São Sebastião, no Rio de Janeiro. Ambos apresentavam o sistema educacional jesuíta em sua forma mais completa, desde o curso de humanidades até o de teologia e ciências. Eram os centros, por excelência, de formação dos líderes religiosos.

No sistema de ensino dos jesuítas, ao curso de humanidades seguia-se o de artes (filosofia e ciência). Os cursos que preparavam para as profissões liberais só existiam na Europa, e os estudantes brasileiros procuravam geralmente a Universidade de Coimbra, famosa pelos cursos de ciências jurídicas e teológicas, e que teve, por isso, grande importância na formação da elite cultural brasileira.

Educação no Século XVIII

Vivemos numa época na qual nunca foi tão fácil obter informações. Atualmente, uma edição de um dos jornais mais conhecidos do mundo, o New York Times contém mais informações do que uma pessoa comum poderia receber durante toda a sua vida no século XVIII, mas nem sempre foi assim.

Jesuítas

No Brasil do século XVIII a educação estava a cargo dos jesuítas, que aportaram em terras brasileiras em março de 1549 acompanhando o primeiro governador-geral Tomé de Souza e eram comandados pelo Padre Manoel de Nóbrega. Contados 15 dias da chegada dos jesuítas no solo brasileiro, ergueram a primeira escolar elementar brasileira, em Salvador que teve como professor um jovem de apenas 21 anos conhecido como Irmão Vicente Rodrigues que durante mais de 50 anos propagou a fé católica e moldou a educação brasileira dentro dos costumes europeus. Também foi desta época o noviço José de Anchieta.

Vinte anos após a chegada dos jesuítas, eles contavam com cinco escolas de instrução elementar e três colégios, todas regulamentadas por um documento escrito por Inácio de Loiola conhecido como Ratio atque Instituto Studiorum. Neste período também eram oferecidos pelos jesuítas os cursos secundários de Letras e Filosofia e o curso superior de Teologia e Ciências Sagradas para formação sacerdotal. Neste momento da história podemos perceber a desigualdade social quando encontramos brasileiros que pretendiam seguir as profissões liberais indo estudar na Europa , na Universidade de Coimbra famosa no campo das ciências jurídicas e teológicas ou na Universidade de Montpellier mais procurada na área de medicina. Os jesuítas foram os únicos responsáveis pela educação brasileira durante um período de duzentos e dez anos, quando depois de muitas queixas sobre o ensino oferecido pelos jesuítas foram expulsos pelo Marquês de Pombal, então Ministro de D. José I o que levou à paralisação dos colégios, missões, seminários menores e escolas elementares. A educação brasileira, com isso, vivenciou uma grande ruptura histórica num processo já implantado e consolidado como modelo educacional.

Era Pombalina

Se os jesuítas tinham como objetivo servir aos interesses da fé, a reforma pombalina buscava a escola como objetivo de servir aos interesses do Estado o que acarretou um grande prejuízo para a educação brasileira. Contávamos com professores mal preparados visto que eram nomeados por indicação o que lhes davam o título de proprietários vitalícios de suas aulas regias, perfazendo salários muito inferiores.

Desde período tão conturbado, sobressaíram-se a criação de um curso de estudos literários e teológicos, no Rio de Janeiro e também o Seminário de Olinda

Esta situação só foi amenizada com a chegada da Família Real ao Brasil em 1808 e o que se viu foi uma nova ruptura com a situação anterior.

Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim

A Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim tem mantido o mesmo objetivo atendendo às classes carentes e suas necessidades. Nesta seção será feito um panorama geral da instituição que tem suas raízes no século XVIII.

Localização

A instituição se localiza no estado da Bahia, na cidade do Salvador, na avenida Jequitáia, número 375, no bairro de Água de Meninos.

Fundador: Joaquim Francisco do Livramento

Nascido na cidade de Florianópolis, o Frei Joaquim viveu toda a sua vida em razão de ajudar os pobres, viajando sempre a pé vivia como pedinte. Com recursos obtidos fundou em sua terra natal um hospital para os pobres. Deixou dois seminários para órfãos um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Confiou a direção destas instituições a confrarias religiosas. Em 1799 chegou à Bahia e fundou com as esmolas o Asilo de São José no antigo Distrito de Santo Antônio Além do Carmo. (FUNDAÇÃO GREGÓRIO DE MATOS, 2006?)

Fundação, objetivos e mudanças

O edifício onde hoje funciona a Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim foi doado em 1724 à Companhia de Jesus por Domingos Affonso, mas passou a pertencer à Coroa com a expulsão dos jesuítas, caindo em ruínas. Após restauração pela Corporação do Comércio, em 13 de maio de 1822, o edifício foi doado à Casa Pia dos Órfãos, por mediação do governador D. Francisco de Assis Mascarenhas, o Conde de Palma, realizando-se sua inauguração, em 12 de outubro de 1825, dia do aniversário do imperador D. Pedro I.

O instituto foi denominado Colégio dos Órfãos de São Joaquim, em homenagem ao Irmão Joaquim, seu instituidor que se dedicou de corpo e alma à filantropia, à educação e à instrução das crianças pobres. (FUNDAÇÃO GREGÓRIO DE MATOS, 2006?)

A instituição foi criada com o intuito de cuidar do seguinte público jovem dando-lhes uma profissão:

  • filhos de feirantes da feira de São Joaquim;

  • filhos de mães solteiras que não tinham com quem deixá-los quando saiam para trabalhar.

  • filhos de famílias carentes do bairro;

  • filhos e netos de escravos (a instituição foi fundada na época em que se consolidava o processo da abolição da escravatura).

No início, na instituição dos Órfãos de São Joaquim havia apenas oficinas para cursos técnicos como sapateiro, pedreiro, eletricista, carpinteiro, ferreiro com o intuito de profissionalizar mão de obra e inserir estes menores no mercado de trabalho e, no caso dos filhos e netos de escravos, oferecer-lhes uma profissão inserindo-os na nova realidade.

Hoje, abriga apenas escola nível primário com projetos para introduzir cursos de informática, hotelaria, garçom e cozinheiro. O objetivo é continuar atendendo a jovens, adaptando-se à realidade atual.

Divisão por gênero

A instituição, desde a sua fundação até hoje, só recebe meninos. Na época da sua criação não existia o modelo de escola mista.

Regime de ensino

Desde a sua fundação a escola segue o modelo de regime de internato. No período da sua fundação, os alunos saíam da instituição um final de semana por mês para a casa dos pais. Hoje, saem na sexta-feira à tarde e retornam na segunda pela manhã.

Influência religiosa

Inicialmente havia ensino religioso até pela própria origem da instituição. Atualmente a escola atende à grade curricular normal sem interferência religiosa. No complexo não há interferência do padre, nem da Igreja na educação dos alunos. Hoje a escola atende a alunos de diversos segmentos religiosos sem distinção.

Alimentação, material didático e fardamento

A alimentação, o material didático e o fardamento são doados pela própria instituição desde a sua criação até hoje. Tanto o material quanto o fardamento são adaptados de acordo com a necessidade de cada época não havendo um padrão estabelecido.

Projeto pedagógico, sistema de ensino e tendência pedagógica

Atua com metodologia mista entre o tradicional e o construtivista piagetiano. Segue basicamente às exigências curriculares do Ministério da Educação (MEC) para a formação dos seus alunos.

No colégio além da grade normal há algumas atividades extras entre elas aula de música e oficinas de filosofia.

Perfil do educador

A Casa Pia é mantida por trabalhos voluntários e pelo convênio que tem com a Prefeitura Municipal que dispôs de alguns professores. A própria prefeitura treina e capacita os profissionais da Instituição.

Estrutura física

Não houve qualquer alteração na sua estrutura física somente a restauração e conservação dos ambientes, inclusive encontram-se em excelente estado.

No colégio, além das salas de aula e dos dormitórios há cozinha, refeitório, biblioteca, auditório, sala de apresentações, sala de TV, enfermaria, consultório odontológico, assistência social e quadra de esportes.

Sistemas punitivos

Até pelo próprio perfil, os menores entravam desde cedo na instituição se adaptando assim às suas normas de forma natural. Não há problemas de adaptação e disciplina, em casos isolados sempre houve diálogo e orientação.

Beneméritos

No inicio das suas atividades a instituição era financiada pela elite da época (inclusive recebeu visita de D. Pedro II). Atualmente é mantida pelos trabalhos voluntários, pelo convênio que mantêm com a prefeitura, com aluguéis de salas pertencentes à igreja e com a renda dos casamentos realizados na igreja do complexo.

Alunos de destaque

A instituição formou desde procurador da república a oficiais da marinha e delegados. Alguns deles contribuem até hoje com a escola, mas não querem ser identificados. Muitos ex-alunos são funcionários da escola. Alguns são beneméritos o que denota uma relação pessoal, de afeto com a instituição.

Considerações Finais

A construção deste material possibilitou a preservação, divulgação e conhecimento da história educacional do país. Na realização deste trabalho foi possível verificar as mudanças que ocorreram na educação. Na visita à instituição percebeu-se um ambiente onde o passado e o presente conviviam em excelente harmonia.

Referências

EMTURSA. Casa Pia e Colégio dos órfãos de São Joaquim. Sem Data. Disponível em: <http://www.emtursa.salvador.ba.gov.br/Template.asp?IdEntidade=1978&Nivel=000100030002000100100002>. Acesso: 05/05/2008.

FUNDAÇÃO GREGÓRIO DE MATOS. Herma - Joaquim Francisco do Livramento. 2006?. Disponível em: <http://www.cultura.salvador.ba.gov.br/sitios-herma-joaquimfrancisco.php>. Acesso: 01/06/2008.

KOSHIBA, Luiz; PEREIRA, Denise Manzi Frayze. História do Brasil. São Paulo: Atual. 1993.

NUNES, Antonietta d’Aguiar. A Educação na Bahia durante os governos de D. Maria I e de D. João, seu filho (1777-1821). 2003. Disponível em: <http://www.posgrap.ufs.br/periodicos/PDF/art_educ_7_4.PDF>. Acesso: 05/05/2008.

 

Last Updated on Thursday, 12 March 2009 23:44